Boss AC é actualmente em Portugal um dos maiores, senão o maior nome do Hip Hop… um poeta urbano, produtor, MC e acima de tudo… um grande “modelador” de ritmo e palavras. Construiu uma carreira que já dura há praticamente uma década, uma carreira diversa, que continuamente se renova, em que são exploradas múltiplas direcções.
Corriam ainda os primeiros anos da década de 90, quando o pequeno panorama musical português se viu agitado pelo aparecimento de uma geração de novos artistas urbanos, numa maioria originária da Margem Sul de Lisboa… estes novos artistas não se reviam nos clichés do rock, mas antes num estilo Rap…
Esta “nova” música foi rapidamente transposta para o registo discográfico, com a edição de “Rapública”, em 1994, uma compilação que reunia a nata dos então rappers nacionais e que desde logo viria a destacar o talento de Boss AC, enquanto autor e intérprete de um dos mais interessantes temas, “Generate Power”. “Rapública” viria a registar num surpreendente sucesso comercial, para logo se transformar em objecto de consumo efémero, infrutiferamente replicado, acabando por resultar num estigma do Hip Hop nacional. É precisamente neste contexto que se inserem as raízes musicais e temáticas dos primeiros temas de Boss AC. O seu álbum de estreia, em ’98, “Mandachuva”, gravado nos Estados Unidos, com a ajuda de Troy Hightower, um dos mais requisitados misturadores de Hip Hop dos EUA, revelou um Boss AC mais maduro, experimentador de novas abordagens musicais – reggae, soul, R&B – mas sempre gravitando em torno desse pólo cultural aglutinador que é o Hip Hop.
O sucesso comercial não aconteceu… talvez por ser uma coisa nova num mercado pequeno e ainda pouco habituado a este ritmo. Mas mesmo assim foi mostrado o grande potencial de Boss Ac como um artista completo e auto-suficiente.
Sentindo a necessidade e o desafio de embarcar em novos trilhos, junta-se com Gutto (ex-Black Company), outro “filho da Rapública”, formando a dupla No Stress. Juntos produzem temas, como o genérico do programa "Masterplan", produzem e promovem, espectáculos dentro e fora de Portugal, lançam a primeira compilação nacional focada no papel e no potencial do produtor, no universo Hip Hop, só para nomear algumas das suas aventuras. Pelo meio teve ainda tempo para tocar muito ao vivo, co-produzir o álbum de estreia do seu parceiro, participar em trabalhos de alguns dos maiores vultos da música nacional – como Xutos & Pontapés ou Santos e Pecadores, entre outros – compor para cinema – “Zona J” e “Lena” – e televisão – “Último Beijo” – e, finalmente, compor todos os temas do seu segundo álbum de originais.
Em 2002 chega “Rimar Contra a Maré” – completamente gravado, produzido e misturado pelo próprio autor – é talvez um disco mais autobiográfico e introspectivo, mais cinzento na sua temática, revelando algum desencanto com as correntes e os escolhos desse oceano que é a própria vida. O próprio Boss assume, ”Não se vê muita luz quando se olha lá para fora, pois não? Vivemos tempos complicados...".
O sucesso de “Rimar Contra a Maré” ultrapassou as fronteiras, reflectindo-se, por exemplo, na nomeação do vídeoclip de “Dinero”, para os African Video Awards, na categoria “Melhores Efeitos Especiais, no consagrado canal sul-africano “Channel0”, uma espécie de MTV africana.
Incansável na busca de novos desafios à sua capacidade criativa, Boss AC continua a embarcar em mais algumas surpreendentes aventuras, nomeadamente reforçando o seu papel de produtor, quase sempre em parceria com Gutto, de alguns dos mais bem sucedidos projectos pop nacionais.
E de aventura em aventura, eis que chega 2005 e “Ritmo, Amor e Palavras”. Um disco que se assume como uma poderosa declaração de amor. Amor ao Hip Hop, à vida, ao prazer, mas também à justiça, à liberdade e ao combate. Um registo de palavras, não fora Boss AC o exemplo consumado do poeta urbano, soando ora duras e guerreiras, como em “Farto de”, ora ternas e envolventes, como em “Princesa (Beija-me outra vez)”. E palavras ainda para reflectir sobre o estado da cultura urbana e para afirmar o seu papel enquanto actor/espectador dessa mesma cultura.
Mas este é também um disco de ritmos, onde são misturados ritmos do Rock, ritmos tradicionais da sua África Natal, a Soul, R&B ou ainda os ritmos tradicionais portugueses.
Para a construção deste álbum foi reunida uma imensa galeria de colaboradores, onde se destacam figuras como De La Soul, Da Weasel, Sam The Kid, Kevin Mercer, Pedro Aires Magalhães, Berg, Carla Moreira, Rita Reis, DJ Konecta ou Kalu, entre muitos outros. As misturas ficam a cargo do seu colaborador de longa daga Troy Hightower – que já misturou De La Soul, Busta Rhymes , LL Cool J, OutKast e Janet Jackson, entre muitos outros.